terça-feira, 13 de novembro de 2012

[4] CONTRIBUTOS DOS TRÊS LIBERAIS, G. CENTAZZI, COR. AMORÓS, E D. PEDRO IV PARA A GINÁSTICA NA CASA PIA

Publicado no De Rerum Natura, dia 10.11.2012

Amorós, apesar das boas impressões que os seus Ginásios colheram, não só pelos resultados positivos obtidos nos jovens e adultos praticantes, como pelo aparato que as grandes dimensões dos aparelhos atraíam, fascinando os curiosos e encantando os turistas, decidiu publicar em 1821, Gymnase normal, militaire et civil. Idée et état de cette institution au commencement de l’année 1821, et moyens de la rendre aussi complète, générale et utile que sa destination le demande[20], onde acentua, a pp. 5 da Introdução, uma solicitação alargada a todas as entidades, oficiais e privadas, no sentido de permitir a construção do palais de la jeunesse ou dar aos Gymnase normal, civil et militaire et tous ses accessoires, la grandeur convenable et des formes dignes de la France. 


Ora esta petição não teria muitos fundamentos considerando que, em 1821, o Estado já lhe concedia 20.000 francos por ano, ou seja € 165.200, e seria aumentado, em 1924, para 32.000, que o mesmo é dizer € 264.320[21], além de uma pensão pessoal. Importa referir que o poder público começou a considerar, contas feitas, que as somas eram desproporcionadas face às possibilidades do erário, pelo que a questão foi levantada na Câmara dos Deputados, onde a maioria concordou em reduzir os gastos, o que traduziria já alguma animosidade contra Amorós.

Esta designação repete-a, na mesma página, dois parágrafos abaixo: L’inspection seule du plan du Gymnase ou palais de la jeunesse,(…). A seguir reproduz um Extrait du Rapport  sur le Cours de Gymnastique de M. Amorós, depois a Déclaration de plusieurs témoins et pères de Famille, e ainda o mais importante, o Extrait du Rapport fait par la Commission de la Société de Médecine de Paris, com nota altamente positiva ao projecto que Amorós vinha desenvolvendo.

A administração para a instrução elementar também aprova o Relatório, tal como os Inspectores da Universidade na Comissão da Instrução Pública. No índice da referência, que ocupa 6 páginas, contam-se 10 relatórios, 1 declaração, 6 cartas, e 39 opiniões, o que permite deduzir a larga faixa de contactos empreendidos por Amorós para desenvolver e alcançar os fins propostos de erguer o Grande Palácio da Juventude. Simultaneamente, lançou um Prospecto de 4 páginas anunciando a publicação das suas três obras, e os respectivos preços, 6 francos, cada um dos dois primeiros volumes, o equivalente em moeda actual a € 49,56, cada, e o Atlas, 20 francos, que equivale a € 165,20, e cujas capas se reproduzem mais acima. A 1.ª edição seria posta à venda em 1830, e custariam os três volumes 32 Fr.Franc., ou seja, na moeda actual, € 234,32.

Como os únicos manuais autorizados pelos serviços da instrução primária, em 1835, foram os dois volumes de ginástica de Amorós, talvez se explique as várias reedições da obra.

Dado este inusitado trabalho para um homem, com os créditos profissionais já firmados e reconhecidos, ter-lhe-ia sido fácil obter mais fundos para alargar a obra e alcançar o Palácio da Juventude que honrasse mais ainda a dignidade gaulesa, como proclamava, pelo que a inclusão de todos os relatórios obtidos, desde as famílias aos médicos, a que acrescem ainda as impressões colhidas pelos turistas estrangeiros que, atraídos pela propaganda, se deslocavam a Paris para ver a aparelhagem e os trabalhos dos ginastas,  visitas que obrigaram Amorós a organizar visitas guiadas. Todos os relatórios se encaminhavam no sentido de convencer as autoridades públicas e privadas da sua utilidade.

Assinale-se, como exemplo, de entre as muitas opiniões que Amorós regista, a tecida por um turista holandês:


Un professeur hollandais, qui voyage pour observer les Gymnases de l’Europe, et qui a déjà visité ceux de Berlin, de Schnefetal et de Berne, déclara, devant les personnes présentes aux exercices, qu’il trouvait les machines du Gymnase de Paris infiniment mieux faites er mieux conçues que celles de Jahan, de Guthsmutz et de Clias, et qu’on devait tirer de ces machines un parti plus avantageux. Quand il vit pratiquer les exercices, son étonnement redoubla ; leur nouveauté et leur utilité le frappèrent, et il assura avoir plus gagné dans cette séance, en connaissances gymnastiques, que dans tous les voyages qu’il avait fait. (Op.cit., pp 83-84)


Era indubitavelmente uma apologia amorosiana e representaria uma opinião abalizada para atrair algum investimento público e privado dados os fins patrióticos expostos.



A gravura representa o Coronel Amorós orientando uma classe de ginástica
(Fonte: “Aula de Desporto e Ginástica para Crianças”, cena da série “Tableaux de Paris”,
c. 1820 (cor liyho), Marlet, Jean Henri (1771-1847) /Colecção Privada / Arquivos Charmet /
/ The Bridgeman Art Library).


Os aparelhos destinavam-se igualmente à juventude pelo que a preocupação em apetrechar as escolas constituíam as preocupações centrais do criador do sistema.



Prancha nº 1 – Seguindo a numeração das máquinas de 1 a 11, como na escrita, temos:  1. Traves apoiadas em suporte;  2. Troncos de árvore, para dificultar o andar; 3. Trave para as crianças desde 2 /3 anos até às de 7/8 de idade, para se sentarem e progredirem da frente para trás e de trás para a frente, até atingirem o final da trave; 4. A mesma trave destinada às crianças mais crescidas, graduando-se a altura para aumentar ou diminuir a dificuldade; 5. Mesa redonda pequena para saltos, para as crianças mais pequenas; 6. Mesa redonda média; 7. Cavalo de volteio pequeno; 8. Cavalo médio para o mesmo efeito; 9. Cavalo maior, para os rapazes  mais velhos; 10. Escada para saltos em altura; 11. A mesma escada vista lateralmente.



                                                                     


Prancha nº 2  – Pórtico 12. Para crianças mais pequenas; e Pórtico 13. Para  adolescentes e homens, e a partir dos 7/8 anos de idade.




Prancha nº 3 – Pórtico 14. Para as crianças que hoje estariam na 3.ª classe do básico


Considerando que os Ginásios duraram entre 1815 e 1837, importa referir – como argumentos de peso a juntar aos expostos na publicação propagandística de Amorós – que Victor Hugo, Honoré de Balzac e Napoleão III, foram alunos do pai da Ginástica Francesa. Foram ? Já indagaremos. Com efeito, nos anos de existência dos Ginásios, Victor Hugo (1802-1885) teria, em 1815,  13 anos; Honoré Balzac (1799-1850), 16; e Napoleão III (1808-1873), 7 anos. Quem o refere é o magistrado judicial Adolphe Touttfait (1907-1990), numa conferência apresentada na Académie des Sciences Morales et Politiques, em Paris, em 08.11.1971, com o título Les Activités Physiques et Sportives Partie Integrante de l'Éducation.

Poderia Amorós ter incluído os nomes dos escritores e do Imperador no seu inquérito? Não, porque Honoré de Balzac só começou a viver em Paris, em 1819, aos 20 anos de idade, e até 1926 escreveu 9 romances assinados com pseudónimo, portanto, desconhecido ainda como escritor, vivendo com muitas dificuldades e muitas dívidas. Victor Hugo ganhou um prémio da Academia Francesa, aos 15 anos, e fundou uma revista, com o irmão, aos 17 anos, e era ainda um ilustre desconhecido. Napoleão III, em 1815, com 7 anos de idade, exilou-se para Alemanha e Suíça, e só regressaria em 1840, com 36 anos de idade. Sem desmerecer das fontes omissas na conferência de Adolphe Touttfait, não se vê na panorâmica biográfica dos futuros escritores e do futuro Imperador, fundamentalmente na dessincronização das datas, como tão destacadas personagens pudessem frequentar os Ginásios de Amorós.

Flaubert, que nasceu em 1821, e que à data do encerramento definitivo dos Ginásios, em 1837, atingia os 16 anos de idade, através da ironia mordaz poderia ter constituído um obstáculo aos desejos de Amorós, não fora o facto de ter publicado Bouvard et Pécuchet, em data tardia, 1881, porque na citada referência transmitiu, através do diálogo dessas duas personagens boçais, no  Capítulo VIII a enormidade e a comicidade involuntária da ginástica de Amorós, oferecendo literalmente um exemplo de "huîtres perlières de la bêtise humaine".

 
Flaubert colocou os dois personagens a tentar cumprir o programa do Manuel d’Éducation Physique de Amoros, findo o qual concluíram que  décidément la gymnastique ne convenait point à des hommes de leur âge; ils l'abandonnèrent, n'osaient plus se mouvoir par crainte des accidents, et restaient tout le long du jour assis dans le muséum, à rêver d'autres occupations. 

Já aqui aflorava alguma animadversão à ginástica da parte da elite que assistia aos espectáculos (ver indumentária da assistência na imagem em baixo), cuja similitude com o circo esvanecia a ideia propalada por Amorós de que pretendia alargar os benefícios da educação física ao maior número possível de pessoas. O ambiente negativo que se vinha urdindo ao seu trabalho teria sido a razão maior da exposição de Amorós, publicitando testemunhos positivos de pessoas gradas da sociedade, e não apenas a construção do Palácio da Juventude. 



Ginásio particular de Amorós, na Rue Jean-Goujon, n.º 6
A indumentária da assistência não é a da classe desfavorecida
(Imagem  copiada, com a devida vénia, de Fabienne Legrand et Jean  Lagegaillerie,
« L’éducation physique au XIX & au XXe 1. en France»,
ed. armand colin-bourrelier, Paris, 1970, Planche III)



Assemelhava-se ao que Friedrich-Ludwig Jahn tinha sofrido, em 1820, devido a invejas da elite, e resultou no seu afastamento compulsivo durante dez anos. E Amorós, conhecedor da história, queria evitar a todo o transe passar pela mesma humilhante situação.

Se era verdade que durante o reinado de Luís Filipe de Orléans (1830-1848) os grandes projectos de Amorós estavam a dar os seus frutos relativamente à preparação militar dos soldados, também apresentavam alguns retrocessos, principalmente depois da revolução de 1830, quando teve de enfrentar problemas administrativos com o governo, e enfrentar alguns inimigos.

Amorós informou-se sobre o ambiente urdido e pôs tudo a claro nas Mémoires du colonel Amoros, directeur et fondateur du Gymnase Normal Militaire et Civil, contre le Comte Cormier du Médic, capitaine du 3e régiment d’Infanterie de l’ex-garde royale, e revelou como o Conde Cormier, depois de conseguir ganhar a sua confiança, acabou por ser admitido como instrutor colaborador no Ginásio Normal Militar. Participava nos trabalhos mas começou por criar um ambiente menos propício e inculcando nos professores e alunos, que Amorós era corrupto, que eles podiam perfeitamente orientar os Ginásios com metade das ajudas do governo. Amorós, logo que se certificou da origem da indisciplina, revelou quem tinha sido o seu fautor, dirigiu-se ao ministério da guerra a pedir uma comissão, só de militares, encarregada de averiguar de onde partiam as calúnias contra a sua pessoa, e esclareceu os destinos das subvenções, lembrando que a preparação do exército francês para a expedição a África, onde o seu filho Manuel participou e morreu, teria custado 2.000 Fr., mas fê-la gratuitamente.


Amorós saiu ileso mas a mancha propalada pelo boato soez ficou, perturbando os trabalhos que continuavam a ser objecto de críticas e de desconfianças quanto aos métodos aplicados. O ministro da guerra, para apaziguar o ambiente concedeu-lhe o cargo de Inspector dos Ginásios Militares (gymnases régimentaires et divionnaires) de toda a França. Apesar dos escassos recursos o ministro ordenou a organização de três ginásios militares em Montpellier, Arras e Metz, na Academia Militar de Daint-Cyr, e no Real Colégio Militar de La Flèche, com o que se esvanecia aos poucos a necessidade do Ginásio Normal Militar de Paris, pelo que o governo acabou definitivamente com o mesmo,  como também tinha já ocorrdo ao Ginásio Normal Civil. 


Aliás, em conflito aberto com o ministro já tinha declarado por escrito, em 20.12.1837, que todo o material do Ginásio Normal Militar lhe pertencia como autor e inventor e que o ministério não podia de nenhuma forma apropriar-se do mesmo. Mas as decisões já estavam tomadas.

Em 29.01.1838, o ministério da guerra coloca Amorós sob a dependência do Estado-Maior, devido à sua idade, 67 anos, e, no caso de discordar, poderia pedir a reforma ou apresentar o seu protesto por escrito ao Conselho de Estado, no prazo de 3 meses. Na resposta, expressa na Représentation de M. Amoros a M. le ministre de la guerre; (au sujet de l’état-major des places (ed. Dupont, Paris, 1838),   considera que a sua função foi sempre a de educador e professor de Ginástica, Educação Física e Moral, durante toda a vida, função que desempenhou com o à vontade de quem abarcou uma boa causa. Dispensa as novas funções por contrárias ao seu estatuto de professor e educador. Mas o ministério da guerra manda desmantelar o Ginásio Normal Militar de Paris, por desnecessário, considerando que nos regimentos principais já havia ginásios, monitores e instrutores formados por Amorós para prosseguirem com o sistema de ginástica francês. 


Sentindo que as forças vivas lhe retiravam os apoios publica ainda, em 18.06.1838, Exposé  du Colonel Amorós à la Chambre des Pairs, sur le Gimnase Normal Militaire, defendendo a necessidade da sua manutenção. Em vão. Morreu o Ginásio mas ficaram as sementes. Permanecerá activo no seu Ginásio Particular até morrer, em 1848. Os seus restos mortais repousam no cemitério de Montparnasse, em cuja lápide mandou inscrever este epitáfio: Ci-gît le colonel Amorós, mort avec le regret de n’avoir pas fait assez pour la gymnastique, à cause des obstacles qu’on lui a toujours opposés.

Contudo, em 15.07.1852, a obra de Amorós reabriu, com nova designação: École Normale Militaire de Gymnastique de Joinville-le-Pont, onde muitos oficiais[22] portugueses foram colher ensinamentos, pelo menos até 1939, data do seu fecho. E mais. Victor Duruy, ministro da instrução pública, ao organizar, em 1869, a ginástica em todos os estabelecimentos de ensino, ordenou que a mesma seguisse os fundamentos do modelo de Amorós, o que constitui um elogio aos trabalhos desenvolvidos pelo pai da ginástica francesa. 


Segundo Piernavieja del Pozo[23], Amorós era um humanista ilustrado, conhecedor dos clássicos da literatura greco-latina, dominando a anatomia e a fisiologia pelo contacto com os médicos que faziam parte da sua equipa de trabalho, e pela leitura assídua das obras de referência, o que lhe permitia escrever alguns artigos sobre ginástica médica na Gaceta Médica de Madrid, em 1834, descrevendo as curas conseguidas nos Ginásios Normais de Paris. Este facto chamou a atenção dos médicos franceses que acabaram por formar uma Comissão encarregada de avaliar o trabalho de Amorós, e cujas conclusões se traduziram neste texto:


Este honorable gimnasiarca posee todos los conocimientos e toda la experiencia necesarios para dirigir y asociar utilmente la gimnasia a la ortopedia (…), los establecimientos del Sr. Amorós reúnen todas las ventajas posibles tanto para fortificar todos los órganos y toda la economía animal, como para corregir las desviaciones parciales del estado normal del tronco y de los miembros y regularizar la acción, en definitiva, para mejorar la constitución física (…). En consecuencia, esta comisión propone otorgar as coronel Amorós una medalla de 1.ª clase. Estas conclusiones son adoptadas por unanimidad. (In “Francisco Amorós y los inicios de la educación física moderna. Biografia de un funcionario al servicio de España y Francia”, de Rafael Fernández Sirvent, ed. Publicaciones Universidad de Alicante, 2005, p.260)




O conseil municipal, numa das suas últimas sessões, decidiu atribuir o nome do coronel Amoros a uma das ruas de Paris, considerando que a ele, cujo túmulo se encontra no cimentério de Montparnasse, se deve a fundação da primeira escola de ginástica. (La Presse, Paris, 23.10.1894). Segundo informação da Federação Francesa de Ginástica,  na sessão do Conselho Municipal de 15.12.1894, foi aprovada a proposta, mas sem concretização,  porque no Dictionnaire des rues de PARIS não há nenhuma rue Amoros. A ideia seria a de escolher uma das ruas do Bairro Grenelle, perto do local onde foram construídos os três Ginásios.



Com efeito, Centazzi, além de dedicar a sua tese de fim de curso a Amorós, cita três casos de curas conseguidas, sem indicar a fonte, se pessoal, se revistas médicas, o que indicia a fonte documental, já que em todas as narrações nunca refere qualquer contacto pessoal, o que lhe era possível, entre a sua chegada a Paris, em 1829, e a sua saída, em 1834, espaço de tempo coincidente com o do funcionamento dos Ginásios Normais Militar  e Civil. Nem o facto de as curas figurarem nas revistas médicas aguçou a curiosidade de Centazzi, quando frequentava os quatro anos do curso.



Anota-se que, em 1961, na sua curta auto-biografia[24], Centazzi relembra que “…poucas semanas antes de eu me doutorar chegou a Paris o Senhor D. Pedro IV, visitou os ginásios do coronel Amorós, e resolveu que se fundassem, neste reino, escolas iguais àquelas. Precisava-se de alguém… que fosse competente para fazer as devidas aplicações da ginástica á higiene, e medicina, e coadjuvasse mr. Marquer, (oficial do exercito francês, nomeado para director do ginásio português) em todos os trabalhos tendentes á administração, organização, direcção, e mais partes teóricas, e técnicas do estabelecimento", e que, dada a ausência de concorrentes, o convidaram para o lugar de adjunto do director do ginásio normal, militar e civil, sobre o qual declararia: “Quanto ao ginásio teve a sorte de muita coisa com que se desperdiçaram avultadas somas, isto é, morreu á nascença. O director Marquer voltou para França, com cinco anos, que lhe deram a titulo de indemnização, e o seu hábito de Cristo; e eu fui agregado ao real colégio militar”


O texto é pouco claro porque, a ideia de D. Pedro IV, era Marquer montar um ginásio na, e instruir os alunos da Casa Pia, e aqui Centazzi opina que o destino teria sido o do Colégio Militar, de onde sairia,  permitindo-lhe  substituí-lo e entrar como agregado.

De qualquer forma, e retomando o tema, como Centazzi se doutorou em 09.08.1834, a ideia que daqui subjaz seria a de que D.Pedro IV, teria estado em Paris, na melhor das hipóteses, em Junho ou Julho, porque se torna difícil saber a quantas equivalem as poucas semanas antes de se doutorar. A hipótese de Junho não se pode pôr porque a guerra liberal estaria a finalizar, o que se confirmou com a assinatura da Convenção de Évora-Monte, em 26 de Junho de 1834[25]. Há que ter em conta que, em Junho de 1834, depois da rendição de D. Miguel, poucas pessoas sabiam da gravidade do mal do Rei-Soldado [D. Pedro IV]. Mas o seu estado era já desesperado, pois os excessos cometidos durante o cerco do Porto transformaram a sua tuberculose, insidiosa e crónica, numa tuberculose galopante[26], vindo a falecer em 24.09.1834, o que dificultava a noticiada visita de D. Pedro IV a Paris.


Na história da educação física nacional a versão seria a de que, em 1834, a ginásrica amorosiana foi introduzida por professores e monitores franceses como Darras (1835), Delauney (1858), e Jean Roger (1865). (in H. de Genst, Histoire de l’Éducation Physique, Tome II, p. éd. Maison d’Édition A. de Boeck, Bruxelles,  1949, p. 278)

Na imprensa noticiava-se que se sabia “com algum fundamento, que se procura fundar em Lisboa um gymnasio normal, civil e militar, para cuja direcção foi chamado um hábil discípulo do coronel Amoros”. (In O Panorama: jornal literário e instrutivo da Sociedade Propagadora dos Conhecimentos Úteis, vols 1-2, Lisboa, 1837, p. 118). Notícia baldada porque em 1837 o Ginásio Normal, Civil e Militar de Paris ia ser desmantelado.


O Dr. José Pontes tem outra história: “Chegou a visitar Lisboa um discípulo do famoso Amoros. Foi chamado por D. Pedro IV, a fim de estabelecer uma Escola Normal de Gimnástica, mas o plano apresentado por este professor era tão vasto que só para o espaço requerido para a sua execução era pequena toda a grande cerca do mosteiro de Belém. (In
”Quási um Século de Desporto-Apontamentos para a História da Educação Física em Portugal”, ed. Soc. Nacional de Tipografia, 1934)

O médico Fernando Correia (1893-1966) apresenta outra versão, não datada, a de que, o director da Casa-Pia, José Maria Eugénio de Almeida, teria mandado vir de França, um professor, que ensinava o método de Amorós[27], mas Rocha Morais e Fernando Barreto[28] asseveram que o referido director só assumiu o cargo em 1860, data em que, de facto, requisitou um professor Jean Roger, da Escola Militar de Saint-Cir, e não o tenente Marquer, acrescentando que, em 1834,  D. Pedro IV, depois da sua visita à Casa Pia, tendo notado o fraco aspecto físico e pouca a higiene dos seus alunos, resolveu introduzir o ensino da ginástica, chamando a Lisboa um discípulo de Amorós, com o objectivo de estabelecer na Casa Pia uma Escola Nacional de Ginástica. Simplesmente o plano apresentado por este professor foi tão ambicioso que, só para a sua execução, era pequena toda a grande cerca do Mosteiro de Belém!. Verificando que o seu plano era inexequível, o referido professor abandonou as suas funções, o que é mais plausível do que ir a Paris, em momento político ainda muito perturbado, e com a saúde em estado muito crítico.

Falta saber qual a Casa Pia visitada por D. Pedro IV, e em que data. O que se tentará esclarecer, ficando desde já assente que foi a Casa Pia do Desterro (actual Hospital de Arroios), fase pior pela falta de asseio e pelas piores condições que as instalações ofereciam.




[20] Ed. P.N. Rougeron, Paris, 1821
[21] A equivalência de valores foi colhida no site Discussion:Livre tournois  http://fr.wikipedia.org/wiki/Discussion:Livre_tournois  (01.11.2012) 
[22] Decreto de 21.12.1912 - É constituída ums missão composta de quatro oficiais destinada a frequentar o curso da escola normal de ginástica e esgrima de Jouin-Ville-le-Pont, que começa e 1 de Fevereiro de 1913 e termina em 30 de Abril do mesmo ano. (DG n.º 9, 11.01.1913) (M.Guerra)
[23] “Francisco Amoros, El Primer Gimnasiarca Español”, in “Citius Altius Fortius”, Tomo II, Fasc. 3, Madrid, 1960, p. 286 e 287.
[25]  D. Miguel, com a sua comitiva, embarcou em Sines no dia 1 de Junho de1833, às 6 horas da tarde a bordo da Fragata Inglesa Stag. Foi sob muitos apupos, e com forte escolta, que conseguiu embarcar. D. Carlos de Bourbon de Espanha, com a sua comitiva, embarcou no mesmo dia, em Aldêa-gallega, no Tejo, para bordo do navio de guerra inglês Donegal. (Crónica Constitucional de Lisboa n.º 132, 06.06. 1834)
[27] A educação física e a medicina em Portugal, in Jornal da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa. Tomo XCIX,  
n.º 6, Junho, p. 77 ,  e n.º 7, Julho. Este artigo figura igualmente no periódico Revista Médica, também de 1935,nos n.º 12 (25 de Set.), n.º 15 (10 de Nov.) e n.º 17 (10 de Dez.
[28]  In Subsídios para a História da Educação Física na Casa Pia de Lisboa 1780-1987, ed. Casa Pia de Lisboa, 1987, p. 47


(Continua)
                                 



sábado, 10 de novembro de 2012

[3] CONTRIBUTOS DOS TRÊS LIBERAIS, G. CENTAZZI, COR. AMORÓS, E D. PEDRO IV PARA A GINÁSTICA NA CASA PIA

Com efeito Francisco Amorós, durante o reinado Carlos IV, e como deputado nas Cortes de Bayona, tomou o partido francês, ao votar a favor de Joseph, irmão de Napoleão, contra as pretensões de Fernando VII.  Logo que entronizado, em 1808, Joseph, que reinaria até 1813, nomeou Amorós Intendente Geral da Polícia[16] , Ministro do Interior e Comissário Real do Exército em Portugal. Assim que as rédeas do poder voltaram para as mãos do Fernando VII, filho de Carlos IV, o Coronel Amorós, conotado como colaborador dos franceses, donde a designação de “afrancesado”[17], teve de emigrar para França, nos finais de 1813, onde acabou por se naturalizar em 1816, e implantar o Sistema Francês de Ginástica .

Como pedagogo de invulgares qualidades, criou em  Madrid o 1.º ginásio no Instituto Pedagógico segundo as orientações do seu autor, o suíço Pestalozzi, de que resultou ter sido nomeado, director do Real Instituto Pestalozziano de Madrid, criado por Carlos IV, em 07.08.1807, com a participação de alguns pestalozzianos vindos expressamente da Suíça. Amorós mudou o nome para Real Instituto Militar Pestalozziano, porque se destinava aos filhos dos oficiais do exército e às pessoas de distinção. A sede da Suíça discordou totalmente do cunho castrense e elitista. Esta alteração aos preceitos pedagógicos de Pestalozzi que propugnava por uma educação popular destinada aos mais desfavorecidos, provocou uma longa troca de correspondência entre a sede helvética e Amorós, sem qualquer acordo possível. Porém, o descontentamento do sector da Igreja que via as suas funções educativas em outras mãos, da nobreza, e dos políticos, pelo total desacordo da mudança do Instituto, fez com que o governo ordenasse o imediato encerramento do Instituto.

Amorós, ciente de que ganharia a causa, apresentara entretanto o Escudo de Armas do Instituto Pestalozziano, pintado por Goya, introduzindo: na parte inferior direita os filhos de Amorós, Manuel a segurar a tábua das unidades, e António a apontar uma parte dela como se estivesse a utilizá-la, os primeiros inscritos do Instituto; e à esquerda, em primeiro plano, uma criança de 10 anos militarmente fardada, com um sabre na mão esquerda, e uma tábua pestalozziana na mão direita. Um raio de luz ilumina as três figuras. 



(Fonte: Doctrina de la visión de las relaciones de los números,
Madrid de la Imprenta Real, 1807)


Na parte inferior pode ler-se:
                                                                                            
                                                                                            

REAL INSTITUTO MILITAR PESTALOZZIANO
ESTABLECIDO POR   S. M.
BAXO LA PROTECCION DEL S.MO  S.OR
PRINCIPE GENERALISIMO
ALMIRANTE
  
Quando Napoleão desistiu de Madrid, depois da derrota das suas tropas na Batalha de Vitória, em  Junho de 1913, abandonando a Espanha, Amorós juntou-se às tropas francesas de Massena que perdiam e estavam a ser empurradas para a França, acabando por seguir o mesmo caminho, e chegar a Paris em Dezembro.

Amorós, cujo carácter transparece no lema que abraçou vitam impendere vero (Juvenal, 4.91), ou seja, arriscar a vida pela verdade, foi o de conseguir a todo o custo construir um gigantesco ginásio e adoptar um método de Ginástica para a França, e nisso se empenhou até à exaustão. Não que ainda pensasse na sua génese, mas porque já tinha tudo preparado, explicado, e escrito meticulosamente, quando, ainda antes de saber o local onde haveria de implantá-lo, conseguiu de um particular a manufactura dos aparelhos que iriam povoar o Ginásio, para o que lhe forneceu o plano, com desenhos e medidas. Neste entretanto, sem perca de tempo, vasculhou Paris, recanto a recanto, rua a rua, à procura do espaço necessário, enquanto simultaneamente sondava as autoridades locais e governamentais, mostrando os planos e as ideias concretizadas no papel, para um apoio, mas a inviabilidade de obter qualquer resposta das entidades públicas à sua exposição não o desanimou.

É certo que também imbuído das mesmas ideias de Pestalozzi, Clias introduziria, em 1815, o ensino da ginástica nas escolas de Paris, até 1833, sem o aparato do sistema amorosiano. Mas é historicamente referido ter havido sempre, entre os dois criadores de ginástica, uma grande rivalidade, desde a chegada de Amorós nos finais de 1813, até à saída de Clias em 1833, para Inglaterra, de onde regressou em 1843, convidado pelo governo francês para organizar e dirigir o ensino da ginástica nas escolas do ensino primário. A revolução de Fevereiro de 1848 obrigou Clias a voltar à Suíça, terra da sua naturalidade.

Nas andanças por Paris descobriu, nos confins do Quartier Latin[18], princípios da rue d’Orleans (hoje, rue Daubenton), o orfanato Institut Durdan, perto do Jardin des Plantes, e encontrou no responsável da instituição a melhor adesão e colaboração, e cujo total apoio e entusiasmo permitiu obter um bom subsídio da municipalidade, pelo que a construção do Ginásio se iniciou em 01.01.1818, tendo sido considerado o primeiro  de Paris, e utilizado  de imediato pelos “órfãos” de todos os escalões etários. Os resultados do trabalho desenvolvido por Amorós não se fizeram esperar: tanto pela manifesta alegria transbordante dos jovens ginastas como pela habilidade e destreza de todos os alunos na execução, e à vontade demonstradas na utilização dos aparelhos e instrumentos.

Os ecos deste acontecimento chegaram aos gabinetes dos ministros da guerra e do interior, que logo se apressaram a tomar medidas de apoio. Amorós argumentava, quando insistia na ideia de que, se a Prússia, a Suécia e a Suíça tinham grandes ginásios ao ar livre, também a França os poderia ter, e isto, independentemente dos ginásios fechados que se espalhavam na Europa, sinal inequívoco da tendência ginasista, como constituíam os exemplos existentes no seu tempo:


1. O do alemão Friedrich-Ludwig Jahn (1778-1852), considerado o pai da ginástica alemã, com a sua ginástica militar para vingar a afronta de Napoleão, de ter derrotado o seu regimento em Iena, em 1806. Para o efeito começa por suprimir o signo gymnastik, substituindo-o pelo germânico Turnkunst[19], acentuando o carácter nacional, e dando-lhe um cunho militar. No final do Império napoleónico, organizou uma associação de ginástica, e criou um ginásio em 1810, apetrechado de cavalo de madeira para volteio e saltos, barra fixa, paralelas, argolas. Devido ao pendor político orientado para a unificação da Alemanha, criou conflitos de tal ordem que levou o governo a prendê-lo, e a proibir a ginástica entre 1820 e 1840, e até proibir o signo  Turnkunst, reintroduzindo a gymnastik. Conseguiu no entanto que, em 1816, se construísse, em toda a Prússia, 116 ginásios.

2. O do sueco Henrik Ling (1776-1839), considerado o pai da ginástica educativa pedagógica, médica e militar, com o seu sistema de ginástica sueca que, apesar de nunca ter publicado  nada sobre a matéria, apenas algumas ideias e alguns preceitos verbais transmitidos aos seus discípulos, gerou diversas querelas entre os intérpretes franceses e entre os portugueses, e até entre franceses e portugueses. Criou igualmente o sistema de massagem sueca, apreendido de um chinês que conheceu nas suas viagens ao estrangeiro, aperfeiçoando-o e divulgando-o. Em 1813 criou o Instituto Central  de Ginástica de Estocolmo, com alguns aparelhos (quadros, espaldares, trave, banco sueco) que a maioria dos países europeus adoptaria. Em 1816 editou-se A Arte de Fazer Ginástica, elaborado a partir das notas dos alunos e apoiantes do sistema sueco. 


Daqui resultou o ministro da guerra ter ordenado a construção do Ginásio Normal Militar, em Paris, e, nomeado Amorós, em 04.11.1819, como director do mesmo, e escolhido o local da sua instalação: a zona do antigo Château de Grenelle, na actual Place Dupleix, entre as barreiras de Grenelle e o Champs de Mars (ver planta do local, abaixo), numa área de 50.000 m², cujo custo ascendeu a mais de um milhão de francos, embora tenham sido os serviços militares a construírem todos os aparelhos concebidos por Amorós, incluindo os utilizados por  Clias (o triângulo), Ling (traves, quadros e banco sueco) ou Jahn (paralelas, cavalo de arção, argolas), não porque os dele não fossem suficientes – já excediam o que era possível – mas porque permitia aos alunos disporem de uma grande variedade para evitar a monotonia, e que os motivasse a conhecer e utilizar cada aparelho. 


  Triângulo de Clias                                                                   Trave de Ling  e paralelas de Jahn





Cavalo de Jahn

 

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Planta do local onde foi construído  o Gymnase Normal Militaire et Civil,
entre as barreiras de Grenelle e o Champs de Mars
Legendas: ▼ local onde foi construída, 70 anos depois, a Torre Eiffel,
entre o Champs de Mars e o rio Sena, e inaugurada em 1889;
Traços a encarnado localizam as barreiras de Grenelle


E para que as escolas não fossem esquecidas, o ministro do interior comunica, em carta dirigida à Sociedade para a Instrução Elementar, datada de 15.03.1821, que o governo tinha ordenado também a criação de um Ginásio Civil Normal, no mesmo local do Ginásio Militar. Pelo trabalho desenvolvido por Amorós  o ministro da guerra nomeou-o, em 1831, Inspector dos Ginásios Regimentais para orientar as respectivas instalações, pelo país. Além do seu ginásio particular, Amorós já tinha montado 7 ginásios em Paris.



[16] In Gaceta de Madrid n.º 51, 20.02.1809. O Decreto é de 18.02.1809.
[17] A este propósito Miguel Artola, na sua obra, com prefácio de Gregório Marañon, aborda o problema de Los Afrancesados, Ediciones Turner, Madrid, 1987, de onde saíram os liberais “afrancesados” das Cortes de Cádiz que  consideraram a intervenção francesa como o fim das revoluções internas e certa regulação na sociedade, para acabar com a anomia, e haveria apenas uma integração cultural dos espanhóis na soberania galesa, e nunca uma integração política. No consenso dos liberais, mesmo “afrancesados”, consideraram que lutar contra as armas napoleónicas só traria a ruína para o país. Para comemorar o Bicentenário  da Guerra da Independência de Espanha (1808-1914), a Editorial Alianza reeditou, em 2008, a 2.ª edição da obra de Miguel Artola. Entretanto, a revista El Argonauta Español, no n.º 2, publicou um artigo de  Gérard Dufour, Une ephemere revue afrancesada: El Imparcial de Pedro Escala (Mars-août 1809), explicando o fracasso dos afrancesados que utilizaram a imprensa para convencer os compatriotas a aderirem à nova dinastia. Em  Portugal, o procedimento nesta matéria foi diferente. Na “Setembrizada” (por se ter realizado em Setembro de 1809) foram presos ou exilados cerca de 50 cidadãos,  magistrados, comércio, militares, clero, profissões liberais, acusadas pelas forças britânicas de colaborarem com os franceses. Reacções de acordo com o ambiente político desenhado em Madrid e em Lisboa.
[18] Considerado o “Sinai do ensino universitário” por cauda da implantação das universidades dos jesuítas na margem esquerda do Sena, mesmo em frente das Île de la Cite e Île de Saint-Louis, na zona compreendida entre a Tour d’Argent, Bd. Saint-Germain e Bd du Palais.
[19]  Turnkunst , deriva do francês “tournoi”, o que lhe enfraqueceu o nacionalismo. Há um caso semelhante com o Comissário da Saúde Pública, Semaschko, da então União Soviética que, em 1918, tomou decisão idêntica ao suprimir os signos capitalistas (ginástica, educação física, desporto), substituindo-os por Fiskultura (cultura física) para também lhe dar um cunho nacionalista russo. 

(Continua)

2 - COMMENT M. DE COUBERTIN CONÇOIT SES JEUX OLYMPIQUES

In  L'Auto, 05.09.1936